quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Two e Three

              

Tell me what to do about you
Something on your mind
Baby all of the time
You could bring out a room  

__Você está demitida__ eu disse para Cláudia - a babá que eu tinha contratado há uma semana para cuidar da minha filha Manuela - assim que ela entrou no meu escritório. Depois de largar minha filha de cinco anos sozinha no parque para “conversar” com o namorado, ela ainda tivera coragem de voltar até minha casa e fingir que nada tinha acontecido.
__Senhor Jonas, por favor__ ela pediu, me interrompendo pela milésima vez__ foi tudo um mal entendido, eu não abandonei sua filha, eu só me afastei um pouquinho, eu... Não vai acontecer de novo, eu prometo.
__Claro que não vai acontecer de novo, porque você está demitida__ achei que não seria necessário dizer que ela estava no olho da rua, mas mesmo depois de repetir isso cinco vezes, ela continuava insistindo e tentando argumentar comigo, o caso é que nada que ela dissesse diminuiria minha fúria. Graças a esse episódio eu estava vinte minutos atrasado para o meu trabalho e eu odiava profundamente perder tempo.
__Não pode fazer isso__ ela implorou__ eu preciso do emprego.
__Talvez devesse arrumar um outro emprego, em outra área__ revidei nervoso__ tem noção do que você fez? Minha filha só tem cinco anos, ela podia ter morrido, ter sido atropelada ou seqüestrada. Uma estranha teve que trazê-la em casa, porque você, a mulher que contratei para cuidar dela, não estava fazendo o seu trabalho. Eu não te pago uma fortuna para que você fique por ai se agarrando com seu namorado, é uma irresponsável.
__Mas senhor Jonas...
__Não tem mas coisa nenhuma Cláudia, está demitida, fora da minha casa por favor__ eu ordenei apontando para porta__ saia ou vou ter que pedir que o segurança te acompanhe, você quem escolhe.
Finalmente ela desistiu, me deu as costas e saiu do escritório aos prantos. Geralmente eu não era tão rude, odiava destratar qualquer pessoa, ainda mais fazer mulheres chorar, mas quando se tratava dos meus filhos a história era outra. Cláudia já era a quinta babá que eu contratava em três meses, e todas elas eram incompetentes e não faziam o trabalho direito, não havia mais babás disponíveis na cidade que eu já não tivesse contratado e Cláudia era minha última esperança, agora eu não tinha ideia do que iria fazer.
Olhei no meu relógio. Vinte e cinco minutos de atraso e eu tinha uma reunião importante em meia hora. Arrumei rapidamente os papéis que eu precisaria para a reunião e os guardei na minha pasta, depois calcei rapidamente os sapatos e fui até a sala enquanto terminava de abotoar a camisa. Meu filho mais velho Matthew, de dezessete anos, estava jogado no sofá mexendo no celular, tentando se concentrar no que quer que fosse, enquanto Manuela se inclinava por cima dele para tentar ver o que ele estava fazendo, ela era uma menina muito curiosa.
__Sai de cima Manuela__ Matthew resmungou irritado__ você está me atrapalhando.
__Só quero ver o que está fazendo__ ela disse ficando em pé em cima do sofá e se esticando mais um pouco.
__Nada que te interesse, não é assunto para crianças__ ele se virou um pouco de lado, escondendo a tela do celular para que ela não conseguisse enxergar. Eles passavam a maior parte do dia assim, Matt perdido no seu mundinho adolescente, e Manuela querendo um pouco da atenção dele.
__Parem com isso vocês dois__ eu ordenei largando a pasta na poltrona e dando o nó da gravata__ Manuela, deixe seu irmão em paz um pouco, e Matt, seja mais educado, ela só tem cinco anos.
__Que seja__ ele revirou os olhos.
Com o Matt era sempre assim, toda vez que eu lhe pedia alguma coisa, ele se limitava a revirar os olhos e responder com não mais que duas ou três palavras e tudo que eu dizia parecia irritá-lo profundamente, não importava o que fosse.
__Eu tenho que ir trabalhar, já estou atrasado__ avisei__ será que pode cuidar da sua irmã pra mim?
__Que eu me lembre ela tem uma babá__ ele disse sem tirar os olhos do celular.
__Papai demitiu ela__ Manuela disse.
__De novo?__ ele ergueu os olhos para me fitar com incredulidade__ já é a milésima babá que você dispensa.
__Eu tenho meus motivos, você vai cuidar da sua irmã está ouvindo?
__Não posso__ ele se levantou, guardando o celular no bolso.
__Como assim não pode?
__Não podendo__ resmungou e começou a caminhar em direção ao quarto, ele escolhera uma péssima hora para me irritar.
__Volta aqui agora Matthew, eu não estou brincando__ ordenei irritado__ estou falando com você e quero uma resposta.
Ele parou no meio do caminho, respirou fundo uma vez, depois se virou para me olhar com ar debochado no rosto.
__Tenho que estar na escola em uma hora__ ele finalmente respondeu__ tenho uma apresentação para fazer, da feira de ciências, que vale mais da metade da minha nota do semestre. Aquele trabalho que eu passei o mês todo fazendo, lembra disso senhor Jonas?
__É pai__ resmunguei, odiava quando ele me chamava de senhor Jonas__ porque não me disse que era hoje?
__Eu disse, duas semanas atrás__ ele me lembrou__ e de novo ontem à noite, você até mesmo prometeu que arrumaria um tempo para ir me ver, mas não se preocupe, não criei ilusões. Você se lembraria disso se alguma vez prestasse atenção em alguma coisa que eu digo, mas estava ocupado demais pensando em si mesmo.
__Hey, cuidado como fala moleque...
__Desculpe__ ele murmurou em tom debochado__, mas vai ter que arrumar outra babá... Senhor Jonas.
E então saiu correndo, subindo as escadas em direção ao quarto e me deixando ali plantado.
__Tudo bem papai?__ Manuela estava sentada no sofá me olhando curiosa.
__Não, não está tudo bem__ suspirei__ CLARISSA.
Clarissa, minha empregada, que trabalhava para mim há dez anos, surgiu correndo da cozinha para atender o meu chamado.
__Algum problema senhor Jonas?__ ela perguntou.
__Preciso que cuide da Manuela pra mim, tenho uma reunião importante e Cláudia não trabalha mais conosco.
__Desculpe senhor, eu não posso__ ela disse envergonhada__ Tânia não veio hoje, pois estava passando mal, tenho que cuidar da comida e da arrumação da casa sozinha, se ficar de olho na sua filha não vou poder fazer mais nada.
Era bem verdade, Manuela era uma criança super ativa, estava aprontando alguma coisa toda hora, sempre em movimento, não tinha como vigiá-la e tentar fazer outra coisa ao mesmo tempo, era uma tarefa praticamente impossível.
__Mas, se o senhor não se importar que eu deixe as tarefas de lado e...
__Não, esqueça__ a interrompi__ eu vou levá-la para o trabalho comigo, será que pode ao menos arrumá-la pra mim?
__Sim senhor__ ela concordou, então pegou Manuela e sumiu em direção ao quarto.
Aquele era um péssimo dia para dar tudo errado daquele jeito. Manuela tinha escola na parte da manhã, mas como era sábado ela estava em casa e eu dependia da babá para ficar de olho nela, não seria um grande problema se Matthew não tivesse compromisso, ele reclamava de tudo, mas quando tinha tempo não se importava de ficar um pouco com a irmã. Mas agora eu teria de levá-la comigo para o trabalho e arrumar alguém para vigiá-la enquanto participava da reunião.
Esperei por mais cinco minutos até que Clarissa voltou com Manuela arrumada. Eu tive que sorrir quando a vi, estava usando um vestido lilás que a mãe comprara pra ela alguns anos atrás, na época Manu era ainda um bebê e o vestido não cabia, mas parecia que ela sabia que ficaria perfeito, Manuela parecia uma princesa quando o usava.
__Estou bonita papai?__ ela perguntou.
__Está sim__ concordei__, mas temos que ir, papai está atrasado.
Peguei-a no colo e a pasta em cima do sofá.
__Obrigada por arrumá-la Clarissa.
__Tudo bem Senhor Jonas.
Sai de casa apressado, levava pelo menos vinte minutos para eu chegar à empresa, supondo que o trânsito estivesse bom, o que eu duvidava muito devido a minha sorte. Arthur, meu motorista, já estava à espera ao lado do carro.
__Bom dia senhor Jonas.
__Bom dia Arthur. Eu vou dirigindo hoje tudo bem? Você fica aqui, talvez o Matthew precise de você.
Matthew ainda não tinha tirado a carteira de motorista e precisava sempre que alguém o levasse quando queria ir a algum lugar, o que não o deixava muito feliz, ele dizia que o fazia parecer uma criança. Uma vez ele saiu escondido com um dos meus carros, por sorte não aconteceu nada de ruim, mas ele me arrumou uma bela dor de cabeça e horas de sermão da avó que tinha vindo visitá-los aquele dia. Eu amava minha mãe, mas ela podia ser bem chata quando queria.
__Como quiser senhor.
Arthur abriu a porta do carro pra mim, coloquei Manuela no banco de trás, pus o cinto de segurança nela e entrei logo depois. Manuela não se calou um minuto sequer durante todo o caminho, o que não ajudou em nada a melhorar o meu humor, eu gostava de silêncio quando ia para o trabalho, ainda mais quando teria uma reunião importante, não conseguia pensar com ela falando o tempo todo, mas ela parecia tão contente que eu não podia mandá-la se calar. Ela falou o tempo todo sobre a mulher que tinha conhecido no parque e a tinha ajudado, parecia que tinha gostado muito dela.
Eu já estava quase chegando à empresa quando meu celular começou a tocar. Eu o atendi, foi difícil ouvir alguma coisa com Manuela tagarelando do meu lado e o barulho do trânsito, mas prometi a mim mesmo que não ia me estressar ainda mais.
__Joe falando__ atendi o celular.
__Joe, é a Selena__ Selena era minha secretária, e também uma grande amiga da família.
__O que foi Selena? Algum problema?
__Só liguei para saber se estava tudo bem, você está atrasado e... Você nunca se atrasa__ ela disse__ a reunião vai começar em menos de dez minutos, aconteceu alguma coisa?
__Quando ela vai voltar para ver a minha coleção de bonecas papai?__ Manuela me perguntou tirando minha concentração por um momento__ ela prometeu que voltaria.
__Hum, eu não sei querida__ respondi__ fica quietinha, por favor, o papai está no telefone.
__Tudo bem papai__ ela concordou.
__O que foi que disse?__ Selena questionou confusa do outro lado da linha.
__Eu estava falando com a Manuela, escuta... Eu já estou chegando tudo bem?
E desliguei o telefone antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa. Três minutos depois eu finalmente consegui chegar à empresa, estacionei o carro na minha vaga de sempre, peguei minha pasta e Manuela e entrei no prédio.
__Bom dia senhor Jonas__ Charlie, que cuidava do elevador, me cumprimentou quando entrei.
__Bom dia Charlie.
Eu trabalho na JI, Jonas Internacional, é um negócio de família. A JI é a empresa de publicidade mais famosa do mundo e eu sou o presidente. O negócio começou com o meu pai, ele construiu a empresa com muito sacrifício, e eu acabei herdando a empresa, já que meu irmão mais velho Kevin nunca se interessou pelo império. Ser um publicitário rico e famoso não era bem o que eu pretendia para minha vida, meus sonhos e objetivos eram outros, mas acabei percebendo o que era melhor pra mim... Meus filhos e meu trabalho são a minha vida agora e tudo que me importa.
Quando finalmente cheguei ao meu andar, o 21°, fui direto em direção a minha sala. Selena estava sentada em sua mesa do lado de fora falando ao telefone, mas o largou imediatamente quando me viu e se levantou, vindo em minha direção.
__Meu Deus Joe, você está uma hora atrasado pro trabalho e dois minutos para Reunião, o que foi que aconteceu?
__Problemas familiares__ fiz um gesto com a cabeça na direção da Manuela e só ai Selena pareceu percebê-la.
__Ah, oi gatinha, tudo bem?
__Tudo bem sim tia Selly.
__Os Franceses já chegaram__ ela avisou.
__Só preciso de mais um minuto.
Entrei na minha sala e dei de cara com Peter sentado na minha cadeira, com os pés em cima da minha mesa. Qualquer pessoa que se atrevesse a fazer algo assim eu poria no olho da rua, mas Peter era meu melhor amigo desde que éramos crianças, quase um irmão, e um irmão extremamente chato e abusado de vez em quando e não era a primeira vez que ele fazia aquilo.
__Bom dia Bela adormecida__ ele olhou no relógio__ está atrasado.
__Eu sei, será que dá pra tirar os pés da minha mesa?__ reclamei e dei um empurrão nos pés dele, a cadeira que estava meio virada voltou à posição normal num movimento rápido e ele quase caiu.
__Hey, vai com calma__ ele disse rindo__ o que aconteceu?
__Oi tio Peter__ Manuela sorriu e depois acenou pra ele.
__Oi princesa__ Peter sorriu de volta e depois me olhou__ foi ela que aconteceu?
__É uma longa história e não tenho tempo pra conversa fiada, desculpa Peter__ arrumei todos os papéis que precisaria para a reunião e olhei no relógio__ pode ficar de olho nela pra mim?
__O que?
__Não posso levar ela pra reunião comigo Peter, me ajuda__ implorei__ é só enquanto eu estou na reunião prometo, ela vai se comportar, não vai querida? Pelo papai.
__Sim papai__ ela concordou.
__Tudo bem__ ele revirou os olhos e se levantou da cadeira pegando Manuela no colo__ faço isso por ela, e não por você. Porque eu adoro essa princesinha linda__ beliscou a bochecha dela e Manuela riu, ela adorava Peter__ quer brincar com o tio divertido Peter enquanto papai chato trabalha?
__Quero sim__ ela bateu palminhas.
__Fico te devendo essa.
Sai da sala antes que ele pudesse fazer outra gracinha, mas ainda o ouvi gritar algo sobre cobrar o favor. Passei apressado pela porta e pelo corredor, Selena veio correndo atrás de mim, tentando me acompanhar e quase tropeçando por conta dos saltos.
__Devagar Joe__ ela reclamou.
__Não tenho tempo Selena, eu estou atrasado.
Ela apressou o passo e se enfiou na minha frente bloqueando meu caminho, respirou fundo um minuto antes de falar.
__Você esqueceu o DVD da apresentação__ ela entregou pra mim.
__Oh, verdade, essa foi por pouco__ peguei o DVD__ valeu Selena, não sei oque seria de mim sem você.
__Estaria completamente perdido__ disse em tom debochado.
__Eu só não discuto com você porque é verdade, agora sai da frente, eu tenho que ir.
Gentilmente eu a tirei do caminho e segui apressado até a sala de reunião. Os Franceses pra quem eu tinha que fazer a apresentação da nova campanha já estavam a minha espera. Parei um segundo na porta, respirei fundo uma vez para me recompor, ajeitei a gravata, pus um sorriso no rosto e entrei na sala... Hora do Trabalho.
Fim do Capítulo 


He was given the world
So much that he couldn't see
And she needed someone to show her
Who she could be  

Virei-me na frente do espelho, analisando com cuidado minha roupa. A saia de cintura alta, a blusa cinza e o blazer por cima, eu tinha que parecer elegante hoje, ia ser minha terceira entrevista de emprego e eu precisava muito conseguir aquele trabalho. Depois de vários minutos de indecisão finalmente decidi que estava pronta, peguei minha bolsa e fui me despedir da minha mãe.
__Me deseje sorte__ eu disse nervosa, ajeitando insistentemente o cabelo.
__Não precisa ficar nervosa, você vai se sair bem__ ela me deu um beijo__ tenho certeza que hoje você vai conseguir um emprego.
__Obrigada mãe__ sorri um pouco mais confiante__ vou sair um pouco mais cedo, assim não corro o risco de me atrasar.
Ela me desejou boa sorte e eu saí de casa e peguei um táxi, já que infelizmente não tinha o meu próprio carro. O lugar da entrevista de hoje era na mesma rua da ultima empresa que eu fui, então já estava familiarizada com o local, mas como saí de casa mais cedo, acabei chegando cedo lá. Resolvi caminhar um pouco para tentar espantar o nervosismo e quando dei por mim estava de novo naquele parque, sentada em um dos bancos, apreciando aquela manhã maravilhosa.
Estava distraída, olhando no relógio para me certificar de que não perderia a hora da entrevista quando ouvi uma voz me chamar.
__Demi__ era uma voz fina, manhosa... Uma voz de criança__ Demi.
Olhei em volta tentando descobrir quem é que estava me chamando. Demorou um minuto para que eu avistasse do outro lado da rua acenando pra mim. Era Manuela, a menina que conheci no parque e ajudei alguns dias atrás. Eu sorri quando a vi e ela começou a correr na minha direção, sem olhar para os lados, consequentemente não vendo o carro que vinha a toda velocidade em sua direção.
Eu me levantei do banco apressada e sem pensar duas vezes corri na direção dela, com o coração disparado no peito, com medo de que não desse tempo. Aconteceu tudo rápido demais, sei que a alcancei e a empurrei para longe do carro e ela caiu sentada no chão, um segundo depois algo me acertou, eu me desequilibrei, bati a cabeça e tudo ficou escuro.

* * * * * *

Quando abri os olhos de novo estava confusa, havia um tumulto de pessoas a minha volta, forcei meu corpo a se mexer e me sentei, sentindo uma dor irritante na cabeça. Percebi que ainda estava na rua do parque, no chão, Manuela estava do meu lado e o motorista do carro também, junto com um monte de outras pessoas.
__Hey, você devia ficar deitada, já chamamos a ambulância.
Eu não devia ter ficado desacordada por muito tempo.
__Eu estou bem__ disse, tirando a dor na cabeça e no meu tornozelo não parecia que tinha acontecido nada grave.
__Eu sinto muito__ o motorista do carro disse__ não consegui parar a tempo, ela correu pra frente do carro e...
__Não se preocupe, está tudo bem__ tentei acalmá-lo__ a menina se machucou?
__Eu estou bem__ Manuela sorriu pra mim e mostrou a mão, tinha uns arranhões e sangrava um pouquinho__ só ralei a mão.
Ela não parecia preocupada com o machucado, na verdade parecia achar até divertido o fato de estar sangrando, eu suspirei de alivio por ela estar bem, aquela tinha sido por muito pouco. Eu estava tentando me levantar e o motorista tentando me impedir, quando um carro chegou derrapando, parou de qualquer jeito e um homem saiu apressado de dentro, correndo em nossa direção. Com a dor na cabeça e a confusão, demorei um minuto para reconhecê-lo, era o pai da Manuela.
__Manuela__ ele chamou, sua voz alta e preocupada__ Manuela?
__Aqui papai__ ela acenou pra ele sorrindo.
Ele abriu caminho de qualquer jeito pela multidão e a agarrou, a pegando no colo e a abraçando, com claro alívio.
__Oh Meu Deus, Manuela, tudo bem? O que aconteceu aqui?
__Eu estou bem papai__ ela disse e mostrou a mão pra ele também__ só ralei a mão.
Ele abaixou os olhos do rosto dela e finalmente me viu ali no chão.
__O que aconteceu?__ ele pôs Manuela no chão e se abaixou do meu lado.
__A menina atravessou a rua correndo__ o motorista do carro começou a se explicar__ eu não consegui parar a tempo, estava vindo rápido. Se não fosse por essa moça tê-la tirado do caminho não sei o que teria acontecido.
__Você está bem?__ ele me olhou com preocupação__ está sangrando.
__Foi só um corte__ eu disse, minha mão estava manchada com sangue por tê-la encostado no machucado, por isso não quis nem olhar, eu odiava ver sangue__ eu estou bem, ele só me acertou de lado, me desequilibrei e bati a cabeça.
__Eu vou te levar a um hospital.
__Não precisa__ tentei argumentar, eu também odiava hospitais e não era nada grave, eu só precisava voltar pra casa.
__Você salvou a vida da minha filha duas vezes__ ele disse, pensei que talvez não se lembrasse de mim, mas estava errada__ é o mínimo que eu posso fazer, vou te levar sim ao hospital, precisa ver se não teve nenhuma concussão.
__Eu já chamei a ambulância__ o motorista disse.
__Vai demorar para chegarem aqui, eu a levo__ ele disse decidido e me fitou com atenção__ consegue andar?
__Não sei.
Eles me ajudaram a ficar de pé, mas não consegui manter o peso pois meu tornozelo doía muito e quase fui ao chão, se o pai de Manuela não tivesse me segurado, eu provavelmente teria batido a cabeça de novo.
__Manuela, entra no carro__ ele ordenou.
Manuela correu e se enfiou no carro, no banco de trás. O pai dela e o motorista que me acertou me seguraram um de cada lado, me ajudaram a chegar ao carro, e me puseram com cuidado ao lado de Manuela no banco de trás.
__Eu sinto muito__ o motorista disse novo, preocupado e claramente se sentindo culpado.
__Está tudo bem, não foi sua culpa__ eu repeti, e realmente não tinha sido.
Chegamos no hospital em poucos minutos. Durante o caminho eu escorei minha cabeça no banco e fechei os olhos, teria adormecido se Manuela não tivesse falado o caminho todo. O Pai dela me ajudou a sair do carro, e me escorei nele para conseguir entrar no hospital, gemendo toda vez que punha o tornozelo machucado no chão, devia ter torcido. Mas para minha sorte o atendimento foi bem rápido e o médico era muito simpático, ele teve de dar alguns pontos no corte na minha testa, e Manuela e o pai ficaram o tempo todo comigo na sala. A melhor parte foi que acabou.
__Pronto, terminou__ o médico anunciou__ vou receitar um remédio para a dor de cabeça, e a torção no tornozelo não é séria, ponha um pouco de gelo, descanse e ficará nova em folha.
__Que bom.
__Eu volto em um minuto__ ele disse e se retirou da sala.
__O que deu em você Manuela?__ o pai dela perguntou irritado__ porque saiu de casa sem avisar? Já disse um milhão de vezes que não deve andar sozinha nas ruas, é perigoso demais.
__Desculpe papai__ ela abaixou os olhos e fez um biquinho__ eu só queria encontrar a Demi de novo, ela prometeu que ia voltar pra ver minha coleção de bonecas.
Eu fiquei completamente sem fala diante daquilo. O pai dela me olhou e apenas suspirou a pondo no chão, não tinha como brigar com aquela menina, ela era um doce e incrivelmente fofa. O médico também tinha feito um curativo na mãozinha dela.
__Ela adorou você__ o pai dela comentou__ só falou de você desde aquele dia, mas não achei que ia fugir de casa pra tentar te achar. E a propósito, eu sou Joe Jonas, não me apresentei da ultima vez que nos vimos.
__É um prazer__ eu sorri__ ou quase isso.
__Você está bem?
__Vou sobreviver, não foi nada grave, não precisa se preocupar comigo.
__Você salvou a vida da minha filha__ ele murmurou acariciando o cabelo dela__ não sei o que teria feito se algo de ruim tivesse lhe acontecido. Obrigada, de novo, essa já é a segunda vez. Tem que ter alguma coisa que eu possa fazer para lhe agradecer.
__Saber que Manuela está bem é o suficiente pra mim, não precisa fazer nada.
__Vamos, eu faço questão, qualquer coisa__ ele insistiu__ vou me sentir melhor.
__É sério, não precisa fazer nada__ eu olhei no meu relógio, de repente lembrando da entrevista__ droga.
__O que foi?
__Eu tinha uma entrevista de emprego quinze minutos atrás__ expliquei fazendo careta__ agora é tarde.
__Está procurado emprego? Talvez eu possa te ajudar a conseguir alguma coisa, como forma de agradecimento.
__Realmente não precisa__ insisti, mas ele parecia determinado a me dar alguma coisa__ eu tenho outras entrevistas marcadas, concerteza vou conseguir alguma coisa. Mas se quer tanto me ajudar, uma carona pra casa seria ótimo.
Era bom pra mim, não teria que esperar o táxi, poderia passar mais um tempinho com Manuela e Joe talvez se satisfizesse com isso.
__Tudo bem, eu te levo sem problemas.
__Você podia ser a minha babá Demi__ Manuela disse de repente.
__O que disse princesa?__ eu a olhei sorrindo, ela era tão fofa.
__Que você podia ser a minha babá, ia ser muito legal.
__Eu demiti a ultima babá__ Joe explicou__ a que abandonou ela no parque e ainda não consegui encontrar outra.
__Podia ser você Demi__ Manuela repetiu dando pulinhos__ ia ser muito legal, você cuidaria de mim, me levaria no parque, e eu poderia te mostrar a minha coleção de bonecas, agente brincaria junto, ia ser muito divertido... O que acha Demi?
Ela ficou me olhando com aqueles grandes olhos cinzas, esperando que eu respondesse, eu não soube o que dizer.
__Até que não é uma má ideia__ o pai dela disse, me pegando de surpresa__ eu preciso de uma babá e você de um emprego. Já cuidou de crianças antes?
__Bem, eu... Trabalhei de babá um tempo quando era mais jovem, e cuidava dos meus primos quando minhas tias precisavam de ajuda__ eu respondi um pouco sem jeito.
__Eu sei que pode parecer precipitado, mas você já provou que é honesta, salvou a vida da minha filha duas vezes, quase morreu e não pediu nada em troca mesmo podendo__ ele comentou__ é uma forma de eu te agradecer e todos saem ganhando, Manuela adora você, e seria algo temporário claro, enquanto eu não encontro uma babá e você um emprego.
__Eu não sei não__ eu estava na dúvida, aquilo era um pouco repentino, não era bem o que eu estava esperando.
__Olhe__ ele pegou um pedaço de papel e anotou alguma coisa__ você sabe onde fica minha casa. Esse aqui é o valor que eu pagava a outra babá__ ele me mostrou o papel com o valor do salário e UOU... Era bem mais do que eu ganharia se tivesse conseguido o emprego com a entrevista que perdi hoje__ o trabalho é de segunda a sábado, folga nos domingos e você teria um quarto para você na casa.
__Aceite Demi, aceite Demi__ Manuela disse sorrindo__ por favor, aceita.
__Não precisa aceitar se não quiser, e nem responder agora__ Joe disse__ foi só uma ideia. Eu realmente preciso de uma babá.
__Eu adoro sua filha, seria um prazer cuidar dela, só me pegou de surpresa, eu não conheço você e... Você não me conhece direito, tem certeza de que quer uma estranha cuidando da sua filha? Quer dizer... Eu sei que a salvei, mas não quer dizer nada.
__É exatamente por isso que sei que é honesta__ ele disse sério__ você nem ao menos sabe quem eu sou.
__Eu deveria saber?__ o encarei confusa.
Ele ignorou minha pergunta.
__Todas as outras babás que eu contratei faziam o serviço de má vontade e era claro que não davam a mínima para minha filha, somente para o meu dinheiro, fora que Manuela também não gostava de nenhuma delas__ ele comentou pegando a menina no colo__ mas ela gosta de você e dá pra ver que você também gosta dela. E depois de tantos anos e de tudo que já passei, eu aprendi a ver a verdade nas pessoas. Conheço uma pessoa honesta quando vejo uma.
Aquela era uma boa resposta. Mordi o lábio indecisa, eu não tinha ido muito bem nas minhas outras entrevistas, tinha perdido a de hoje e provavelmente me daria mal nas próximas. Mas eu precisava muito de um emprego, e o dinheiro que ele estava oferecendo, para cuidar de uma menina tão adorável parecia até um absurdo de tão bom que era.
Mas parando pra pensar um minuto... Aquela podia ser a chance que eu estava esperando, eu tinha a sensação que algo muito bom me aguardava, uma grande chance, quem sabe não era aquilo? Ser babá não era o que eu planejava, mas a oportunidade bateu em minha porta, então... Porque não deixá-la entrar?
__Seja minha babá Demi__ Manuela pediu, com os olhinhos brilhando.
__Manuela... __ Joe já ia repreendê-la por ficar insistindo, mas eu o interrompi.
__Quer saber__ eu respirei fundo__ eu aceito.
__Sério?__ ele pareceu surpreso.
__Sim__ concordei, não acreditava que estava mesmo fazendo aquilo__ eu vou adorar cuidar da sua filha, ela é um amor e o dinheiro vai ser muito bem vindo. Você pode olhar minhas referências para ter certeza sobre mim.
__Oba__ Manuela comemorou batendo palminhas.
__Ótimo__ Joe disse satisfeito__ pode começar então assim que se sentir melhor. Você já sabe onde fica minha casa, mas eu mando o meu motorista buscar você e as suas coisas. E tem mais uma coisinha que eu tenho que dizer antes de você aceitar o emprego.
__O que?__ o olhei desconfiada.
__Eu tenho outro filho, ele é um adolescente, tem dezessete anos, tecnicamente não precisaria de uma babá, mas gosto de manter alguém sempre de olho, ele é meio rebelde e gosta de aprontar só pra me contrariar__ ele explicou__ seria bom se pudesse ficar de olho nele também.
__Ah, sem problemas, eu tenho muitos primos mais novos que eu e sei como lidar com adolescentes.
__Então, é isso? Aceita o emprego?
__Claro__ concordei__ aceito.
O médico voltou depois com a receita do remédio para dor de cabeça e para me recomendar descanso. Como havia prometido, Joe me deu uma carona até minha casa e falamos mais um pouco sobre o emprego, o resto dos detalhes acertaríamos quando eu fosse até a mansão, ele prometera mandar seu motorista me buscar. Manuela era a mais contente com aquela história toda.
Depois que eles foram fiquei sentada no sofá olhando para o papel com o valor do salário que ele oferecera. Não era o meu estilo aceitar proposta de emprego de estranhos, eu simplesmente não acreditava que estava mesmo fazendo aquilo, mas não tinha nada a perder. Que problemas eu poderia arrumar trabalhando como uma babá? Talvez fosse isso que eu precisava para recomeçar minha vida, fazer algo diferente e inesperado, arriscar um pouco. Afinal, eu não tinha nada a perder.
Fim do Capítulo

6 comentários: