sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Seven (Maratona)

                

These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase

Aconteceu tudo muito depressa. Num minuto eu brincava com Manuela no quintal, no segundo seguinte ela saiu correndo e rindo, entrou no escritório do pai, já que a porta estava aberta e esbarrou no irmão que estava inclinado sobre a mesa observando distraidamente alguma coisa. O refrigerante que ele tinha em mãos caiu sobre os documentos espalhados na mesa e ai tudo virou caos, Matthew arregalou os olhos assustado e então gritou com Manuela, culpando-a pelo incidente, ela correu pra junto de mim assustada e então Joe apareceu no escritório. A discussão entre ele e Matthew foi das feias, eu ainda tentei ajudar dizendo alguma coisa, mas eles estavam ocupados demais se ofendendo para me ouvir, então levei Manuela embora.
Clarissa me acompanhou enquanto eu levava Manuela para o quarto dela e a punha para brincar. Ela não demorou a esquecer do ocorrido e eu e Clarissa ficamos quietas um minuto no quarto, esperando para ver se a confusão passava, afinal aquela briga não era da nossa conta.
__Essa briga foi das feias__ comentei distraidamente.
__Isso acontece muito por aqui__ Clarissa disse__ Joe e Matthew estão sempre brigando.
__Então essa confusão é frequente?
__Bem, o Matthew gosta de provocar o pai, e o senhor Jonas perde a paciência muito fácil__ ela explicou__ escuta Demi, você é nova por aqui, então não sabe como as coisas funcionam. Eu não devia dizer nada, pois o senhor Jonas pode não gostar, mas se você vai trabalhar por aqui é bom que esteja ciente das coisas.
__Do que está falando?__ perguntei curiosa.
__O senhor Jonas mudou muito depois que a esposa morreu, eu trabalho aqui há muito tempo e sei do que estou falando. Ele era um homem alegre, é bem verdade que nunca foi muito bom com crianças, mas eles eram muito unidos.
__E oque aconteceu então?
__Quando a senhorita Rachel descobriu sobre o câncer tudo mudou. Foi difícil pra ele vê-la definhar daquele jeito e quando morreu ele virou um homem triste, foi como se um pedaço dele tivesse morrido junto, eles eram como uma coisa só, dava gosto de ver. O caso é que pra espantar a tristeza e não pensar nela, ele passa a maior parte do tempo trabalhando e não fala com ninguém sobre como se sente, embora esteja bem evidente. Ele se afastou do filho, não consegue conversar com ele e o menino vive aprontando para ver se consegue chamar a atenção do pai e é assim que acaba__ ela apontou pra porta__ estão sempre brigando.
__Que coisa horrível.
__O Peter e a Selena, e até a mãe dele estão sempre tentando ajudá-lo, mas ninguém consegue.
Era triste saber disso, eu sofri quando o homem que eu amava me abandonou, imaginava como seria ver o amor da minha vida definhar até a morte, não era algo fácil de superar. Não era nada agradável ver pai e filho brigando desse jeito, o que eles precisavam era conversar, se entender, ajudar um ao outro a superar ao invés de se tratarem com gritos, mas eu não era ninguém para me intrometer nesse assunto, eu só estava ali para cuidar da Manuela. Eu tinha meus próprios problemas para cuidar.
O caso é que, quando deixamos Manuela brincando no quarto e resolvemos sair para ver como estavam às coisas, encontramos Joe no corredor e ouvimos Peter conversando com Matthew no quarto. Desviei os olhos do rosto de Joe, ele parecia perdido enquanto ouvia os insultos do filho, mas a pior parte foi quando ouvimos ele dizer: “Eu preferia que ele tivesse morrido e não ela.”
Eu prometi a mim mesma que não ia me intrometer nesses assuntos pessoais, era coisa de família e eu era uma intrusa, mas tive vontade de ajudar os dois a se resolverem e me ofereci para conversar com Matthew. Estavam todos esperando na sala para saber o que ia acontecer e eu parada na porta do quarto dele, criando coragem para entrar e pensando no que eu poderia dizer para melhorar a situação. Respirei fundo e bati na porta.
__Vai embora, não quero falar com ninguém__ ele resmungou de lá de dentro.
Virei à maçaneta mesmo assim, a porta estava aberta, então entrei antes que me arrependesse.
__Eu disse para ir embora__ ele reclamou quando me viu__ o que você quer?
__Só quero falar com você um minto__ pedi encostando a porta e me aproximando dele, que estava sentado na cama.
__Não tenho nada pra falar com você, sai do meu quarto.
O quarto de Matt não era bem o que eu esperava de um adolescente como ele, assim meio rebelde. Era um quarto organizado, uma das paredes era toda preta e nessa havia muitos desenhos colados, desenhos que ele mesmo devia ter feito, pois havia uma mesa especial com muitos lápis e material de desenho no canto. E eram desenhos muito bons. As outras paredes eram azuis, havia uma escrivaninha no canto, com um computador, a cama era de casal, bem espaçosa, e havia também um violão em um canto. Tinha uma prateleira com livros e também outra com muitos Cds diferentes... Ele devia ter o mesmo gosto para música que a mãe.
__Escuta Matthew, eu sei que não é da minha conta...
__Está certa, não é da sua conta__ ele me lançou um olhar feio, tentando me intimidar.
__Mas... __ continuei a falar mesmo assim__ sei pai não queria te ofender ou te magoar, ele só ficou um pouco nervoso.
__Você não sabe de nada, chegou aqui agora, não conhece ele__ rebateu irritado__ é sempre a mesma coisa, algo dá errado e ele desconta a raiva dele em mim, eu sou sempre o errado. Eu sei que sou só um estorvo na vida dele, ele só me aturava antes por que a mamãe estava viva, e agora é por pura obrigação.
__Isso não é verdade, ele ama você.
__Como você pode saber disso?__ me desafiou.
Ele realmente estava decidido a não mudar de atitude, mas eu ainda não ia desistir.
__Seu pai ficou muito magoado com o que você disse__ comentei o fitando com atenção__ sobre querer que ele estivesse morto.
__Não falei realmente sério__ ele murmurou com um pouco menos de grosseria__ é que concerteza com a mamãe as coisas seriam diferentes.
__Ele não faz por mal, só sente falta dela.
__Eu sinto também, ela era minha mãe__ me lembrou__ é só que ele... Ele parece que morreu junto com ela. Às vezes fica horas trancado no antigo quarto deles com as coisas dela, ele não conversa mais comigo, não tem tempo pra Manu, parece mais um zumbi do que uma pessoa normal. Ele não age como meu pai e sim como meu dono, quer que tudo seja do jeito dele, ninguém pode errar, ele não chora, ele não fala e quer que todos sejam iguais a ele.
__É o jeito dele de lidar com a dor.
__É o que todo mundo fica me dizendo, mas não quer dizer que está certo... Estou cansado disso.
__Matthew__ me aproximei um pouco mais, falando com suavidade__ você é ainda jovem, nunca esteve apaixonado, por isso não consegue entender como é doloroso perder alguém assim. Sei que você também sofre por ter perdido sua mãe, mas são coisas diferentes, são situações diferentes... Você não entende.
__E você por acaso entende? Como você pode querer me dar um sermão sobre isso? Você não sabe de nada, não passou pelo mesmo que nós, não nos conhece e não tem direito algum de querer vir me dizer como meu pai se sente ou como eu devo me sentir__ ele gritou zangado__ não pode vir até aqui e me dar um sermão, você não é nada minha, não é minha mãe e muito menos minha amiga.
Suspirei, ele de certa forma estava certo, eu não era ninguém para me meter.
__Você tem razão, eu não sou ninguém, só uma babá. Não sou da família, e nem sua amiga, mas poderia ser se você quisesse. Eu não conheço você e você não me conhece, mas isso pode mudar, pode contar comigo se precisar.
__Não preciso da sua amizade, não preciso de ninguém.
__Todo mundo precisa de alguém.
__Não eu__ rebateu rapidamente.
__Sei que está zangado com o seu pai, mas a culpa não é só dele.
__Está querendo dizer que eu tenho culpa?__ ele me encarou incrédulo.
__É fácil criticá-lo quando está nervoso, mas talvez as coisas fossem diferentes se ao invés de desafiá-lo e ficar esfregando seus erros na cara dele, você tentasse ajudá-lo a ser um pai melhor, o pai que você gostaria que ele fosse. Você diz que ele não te ouve, mas alguma vez já tentou conversar educadamente com ele? Já se sentou e perguntou como ele se sentia e disse a ele o que você estava sentindo? Alguma vez tentou entender o lado dele e não só o seu? E não falo só de você, vale pros dois... Se fossem menos cabeça dura, talvez não precisassem brigar o tempo todo.
Ele ficou calado, pela primeira vez sem saber o que me responder.
__Mas, eu sou apenas uma empregada__ ergui as mãos como quem se desculpa__ sou só uma simples babá. Não estou aqui pra te dizer o que pensar ou fazer, ou para te dar sermões, porque sei que isso não ajuda em nada, só aumenta a raiva. Mas se precisar de uma amiga algum dia, saiba que pode contar comigo... Não tem que gostar de mim, mas talvez devesse pensar um pouco no que eu disse.
Matthew ficou calado e abaixou a cabeça parecendo envergonhado, mas eu não achava que ele fosse dar o braço a torcer e admitir que eu estava certa. De uma forma ou de outra eu era só mais uma empregada, mas sinceramente esperava ter ajudado em alguma coisa. Eu podia não ter salvação, mas podia tentar ajudar os outros. Quando cheguei à sala, estavam todos calados, um clima estranho no ar e os olhos vieram todos pra mim.
__Falou com ele?__ foi Peter quem perguntou.
__Falei sim, ele está um pouco mais calmo, mas... Acho que ele precisa de um tempo, vai superar.
__Sabia que essa conversa não ia adiantar de nada__ Joe suspirou e se esticou pra pegar uns papéis na mesa__ aqui Selena, já assinei todos os papéis.
__Obrigada__ ela pegou os papéis e guardou em uma pasta e então se virou pra mim__ nós não fomos apresentadas ainda, eu sou Selena Gomez, amiga do Joe, e secretária também.
__É um prazer__ apertei sua mão__ sou Demi Lovato, babá da Manuela.
Ela sorriu pra mim, era muito bonita e simpática. Tinha cabelos negros na altura dos ombros, olhos gentis e tinha classe, dava para ver no jeito como falava, nas suas roupas e na postura.
__Também acho que Matt só precisa de um pouco mais de tempo__ ela comentou__ sabe como são os adolescentes, gostam de drama.
__Eles não guardam rancor por muito tempo, se souber o jeito de dobrá-los__ Peter concordou.
Joe nos olhos feio, não parecia muito a fim de ouvir aquela conversa, então todos se calaram. Ele se levantou e caminhou até um pequeno bar que tinha ali na sala, encheu um copo com alguma bebida que eu não conhecia e bebeu tudo num gole só.
__Você conhece o Joe há muito tempo?__ perguntei a Selena para tentar descontrair.
__Sete anos__ ela disse__ minha mãe e a dele são amigas e nos apresentaram. Você é a mulher que salvou a Manu não é mesmo?
__Foi uma mistura de azar e sorte ao mesmo tempo__ dei de ombros.
Falamos mais um pouco, ela perguntou de onde eu era, se estava gostando da cidade, coisas assim e me contou que foi Joe quem lhe ofereceu o emprego de secretária quando ela estava em um momento de necessidade, assim como eu. Foi só quando ela tocou no nome da empresa... JI, que eu finalmente me manquei quem Joe Jonas era e então me senti completamente estúpida por não ter percebido antes. A JI era a empresa de publicidade mais famosa do mundo, e eu já tinha ouvido falar nesse nome... Joe Jonas, mas quem diria que eu viria a ser babá da filha dele?
A conversa não durou muito tempo, Peter estava do outro lado da sala tentando acalmar os nervos de Joe quando Selena o chamou para ir embora pois tinham que voltar a empresa e entregar os documentos que trouxeram para Joe assinar, era um assunto urgente e eles já tinham demorado demais. Estavam se despedindo quando vimos Matthew descendo as escadas. Fez-se um silencio constrangedor enquanto ele caminhava até Joe, meio cabisbaixo.
__Pai, me desculpe por ter gritado com você e dito aquelas coisas, eu estava zangado, foi errado da minha parte desafiá-lo e eu sinto muito__ ele murmurou um pouco baixo demais.
__Tudo bem__ Joe disse e estava claro pela expressão em seu rosto o quanto estava surpreso por aquelas desculpas.
__E sinto muito ter estragado o seu trabalho__ ele continuou__ não devia estar no seu escritório. Mas antes de derrubar o refrigerante eu estava olhando os papéis da sua nova campanha e acho que posso ajudá-lo.
__Me ajudar?__ Joe ergueu a sobrancelha confuso.
__Eu fiz esses desenhos há um tempo__ ele estendeu a mão com algumas folhas na direção de Joe__ tem haver com o tema da campanha e talvez possam lhe dar alguma ideia pro comercial, era isso que o senhor estava tentando fazer não era?
__Era sim__ Joe concordou pegando os desenhos e olhando rapidamente, depois voltando a encarar o filho__ obrigado Matt.
__Fico feliz por ajudar já que fui eu quem estragou os seus projetos.
__Foi um acidente__ Joe disse__ me desculpe por ter perdido a cabeça e gritado com você.
__Tudo bem. Com licença.
E então ele se retirou, lançando-me um sutil olhar antes de subir as escadas e voltar ao seu quarto.
__Ok, o que foi isso?__ Peter perguntou confuso.
Joe fitou os desenhos na sua mão e depois olhou pra mim com curiosidade, eu corei envergonhada.
__O que foi que você disse pra ele?__ Joe me perguntou__ como conseguiu isso? Ele nunca me pediu desculpas por nada que fez, nunca dá o braço a torcer quando brigamos, pelo menos não sinceramente.
__Ele é só um adolescente__ dei de ombros__ só precisa saber como falar com ele.
Todos ficaram me encarando de boca aberta e aquilo me deixou incomodada. Eu sempre tive jeito com crianças e adolescentes, cresci no meio deles e ajudei a criar muitos também, eu acho que tinha o dom, eu nasci pra ser mãe, mas nunca teria um filho meu, pois um filho precisava de um pai e eu queria distancia dos homens.
__Com licença, eu vou ver como a Manuela está.
Então sai da sala com todos me olhando e passei o resto da tarde no quarto brincando com Manuela.
Fim do Capítulo

No mínimo 1 comentario para o próximo capitulo ! XOXO

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